domingo, 27 de novembro de 2011

Anseios da alma

Um pouco de crônica para vocês....
O despertador do celular tocou insistentemente uma música conhecida, uma mão nervosa procurou o aparelho e em um gesto rude o desligou. Abriu os olhos lentamente querendo que o dia demorasse mais um pouco para começar. A noite mal dormida ainda fazia presente em seu corpo e uma vontade monstruosa de mais uns minutos de sono lhe prendia à cama.
Sentou-se. Parecia que não havia dormido nada, o corpo estava dolorido talvez pelo fato de ter ficado revirando a noite toda, o cansaço ainda era latente. Precisava levantar, mas a vontade era continuar ali ,mesmo que fosse sem dormir. Levantou-se demoradamente, tomou banho, vestiu-se e olhou-se no espelho, ficou por um bom tempo fitando aquele rosto que naquele momento lhe parecia tão diferente... tão frio...tão distante.
Detestava tudo aquilo, aquela rotina que tanto lhe sufocava, aquele mesmo ar todo dia igual, aquela falta de emoção, aquele mar calmo que mais parecia um rio esquecido. Não agüentava mais aquilo, não suportava mais ser aquele ser sem vida, sem brilho, sem cor. A aquela vida tão gélida e que ironia.... tão sem vida.


Saiu de casa, o passo pesado como quem estava indo para uma guilhotina. O mesmo caminho, o mesmo horário, e às vezes, as mesmas pessoas. Todo santo dia igual... as mesmas casas, os rostos tão conhecidos e tão estranhos, nada muda, tudo tão parecido e tão preto e branco, lembrou-se de um trecho da música “A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores....” isso fez um meio sorriso aparecer em seus lábios. Não um sorriso de alegria, pelo contrário, só as pessoas que não suportam mais a situação em que estão conseguem entender aquele sorriso.


Chegou ao trabalho, sento-se à sua mesa e passou ali a manhaã Saiu para almoçar em um restaurante próximo, pediu o mesmo prato, o mesmo refrigerante, comeu como quem já está acostumado com o tempero, não era nem bom nem ruim, apenas conhecido. Voltou para a sua sala e passou o tarde, ora chegava um, ora chegava outro, atendia ao telefone, dava alguma informação quando era preciso e assim as horas foram passando.
No caminho de volta parecia que andava em câmera lenta, todos ao seu redor pareciam que estavam apressados, não olhavam ao redor, não prestavam atenção na brisa fria que lhes balançavam os cabelos, não notavam a lua no céu, estavam apressados, correndo.... Chegou em casa, jogou as chaves em cima da mesa, abriu a geladeira bebeu um pouco de água, ligou a TV passava um programa chato em um canal chato, tirou a roupa deixou-a no canto e foi para o banho. Deixou a água cair suavemente em seu corpo no desejo que todo o peso que carregava saísse com aquela água.

Após vestir uma roupa leve sentou-se no sofá e ali ficou olhando para o teto, o olhar fixo em algum ponto qualquer, vago, distante. Pensou, pensou e pensou. Porque a sua vida estava assim? No fundo sabia, permitiu que chegasse a esse ponto. Permitiu? Ou foram as circunstâncias? Não sabia ao certo, mas aquilo estava sendo torturante, aquela falta de sentido, aquela dor e aperto no peito todas as manhãs. Sentiu vontade de chorar, as lágrimas não caiam, simplesmente suspirou. Parecia que a vida de todos estavam na mão certa, só a sua estava na contramão. O que havia de errado então? Será que foi por ter negado o que era e o que queria ser? Ou porque se importou demais com as pessoas? Ou melhor....com as opiniões delas...Não sabia....Mas gostaria de mudar, sabia que a vida é importante demais para ser jogada fora.
Precisava mudar, precisa viver, não apenas sobreviver, mas viver e viver intensamente. Precisava de emoção, de sentir o sangue pulsar nas veias, de sorrir abertamente, de respirar tranquilamente. Deu um leve sorriso diferente daquele da manha, levantou-se abriu a porta do quarto, olhou para cama arrumada, para o celular no chão, apagou as luzes deu meia volta, fechou a porta atrás de si e deitou-se confortavelmente entre as almofadas do sofá, sabia que acordaria com o corpo todo dolorido, mas dessa vez seria diferente, preferia ter uma noite de sono tranqüilo e acordar com os raios de sol pelo vitrô da janela naquele sofá pequeno, a passar mais uma noite em claro revirando em uma cama sem vida. Precisava mudar....Gostaria de viver....

domingo, 6 de novembro de 2011

Colcha de retalhos

Sinto-me como uma colcha de retalhos. Pedaços e fragmentos de diferentes tecidos formando um único corpo. Deparo-me diante da minha imagem refletida no espelho e questiono-me quanto de mim tem naquela que se apresenta diante de mim.
Percebo que sou uma junção de quebra-cabeças, de peças que nem sempre se encaixam perfeitamente, mas que moldam o que eu sou hoje. Quanto eu mudei e continuo mudando, vejo que sou feita de fragmentos. Atitudes que tive a segundos atrás não mais terei se eu viver a mesma situação. Olho para trás e vejo quantas “eu” fui até tornar-me  o que sou agora, mas quem estou sendo nesse exato momento?
Lembro que minha avó fazia colchas de retalhos (pedaços) de pano e às vezes ela combinava as cores, os desenhos e estampas e como ficava bonita, outras vezes porém, não havia esse cuidado e ela ia costurando apenas um retalho no outro sem se importar com as cores, estampas e tamanhos e não ficava tão bonita, diferente sim, bonita não. E também somos assim, a nossa vida é uma colcha feita com vários retalhos de vivências e experiências.
È difícil saber o que estou sendo hoje, vejo que meus retalhos me trouxeram a esse ponto em que me encontro e não sei como serei amanha. A cada mudança que sofro, noto que levo um pedaço de algo e isso me faz perceber que as personagens que vivi e tenho vivido ao longo desses anos são frutos do momento em que eu estava.
Sou pedaços de ações, um pouco de tudo que eu vivi, não sou apenas uma, sou muitas, várias, multifacetada.